m
Loader image
Loader image
Back to Top

Blog

“2084” aborda privacidade, clonagem e desigualdade

Margaret Atwood, autora do Conto da Aia, diz que “a ficção científica não fala de futuro, mas sim do presente”. A referência à citação é da jornalista e pesquisadora em futurologia Lidia Zuin, organizadora da antologia 2084: Mundos Cyberpunks, ao explicar que a obra – em pré-venda na Amazon e outras lojas digitais em sua versão e-book – consegue representar com verossimilhança e plausabilidade as visões fictícias dos autores em relação ao futuro.

Com 31 escritores nacionais assinando 35 contos, o livro vai muito além de carros voadores, roupas sintéticas e cenários carregados de iluminação em neon colorido. A coletânea livro traz consigo reflexões surpreendentes e profundas sobre questões de fato já vigentes em nosso presente, como privacidade digital – ou a falta dela –, clonagem ou criação de robôs iguais a seres humanos sem o consentimento de seus “modelos” reais, e a desigualdade social gerada pela tecnologia.

Pesquisadora em futurologia e organizadora de 2084: Mundos Cyberpunks, Lidia Zuin.

Para isso, conforme explica Zuin, a curadoria e edição dos textos originais teve de considerar outros aspectos além do técnico. “Muitos deles eu tentei analisar não apenas a partir de um olhar técnico focado em escrita e narrativa, mas sim na verossimilhança e na plausabilidade da ciência e da tecnologia abordadas ali. É claro que existem algumas licenças poéticas, mas na ficção científica, é importante que as tecnologias apresentadas façam sentido”, afirma.

Durante a edição dos contos, já no processo de pós-seleção de escritores, Lidia buscou aprofundar tecnologias apresentadas nas tramas. “Em alguns casos, eu deixava questionamentos ao autor ou autora sobre os detalhes de determinada tecnologia ou o motivo de tal personagem ter determinada característica se levarmos em consideração o ano em que a história se passa, 2084”.

Realidade brasileira

Um dos pontos fortes dos conteúdos apresentados pelos escritores foi a aplicabilidade das tecnologias e tendências à realidade brasileira. Segundo a organizadora da obra, houve agradável surpresa nesse sentido. “Me surpreendi como alguns autores estavam super atualizados e pensando em como aplicar essas tecnologias e tendências à realidade brasileira, por exemplo. A maioria não se focou tanto em falar de tecnologias mirabolantes, mas sim da relação homem-máquina ou homem-tecnologia, as implicações na sociedade e no que, afinal, é ser humano”.

Capa com ilustração de João Henrique de Jesus Gomes.

Para a pesquisadora, que lida diariamente com assuntos relacionados ao futurismo, a coletânea conseguiu refletir uma das características mais importantes do gênero. “O cyberpunk tem essa característica de ser bastante reflexivo e existencialista. Isso se reflete na coletânea, com uma atualização por conta do momento histórico que vivemos e do maior acesso que temos a informações tecnológicas e científica”, diz.

A escritora destaca alguns dos assuntos abordados na obra que dialogam muito bem com o que existe, de fato, em termos de pesquisa científica em linhas de futurologia. “Alguns autores, por exemplo, especularam como seria se pudéssemos comprar todos os dados da rede social de uma pessoa para poder conhecer melhor quem ela realmente é – algo que tem muito a ver com a questão atual de privacidade do Facebook”, compara.

Desigualdade

“Outros questionaram o problema da clonagem ou da criação de robôs idênticos a pessoas reais, sem consentimento. Hoje já temos os chamados geminoids, só que por serem ainda muito trabalhosos e caros, eles não são produzidos em larga escala e, por isso, não é qualquer um que tem uma cópia robótica. Mas e quando isso baratear?”, questiona.

“Uma outra questão bastante abordada foi a da desigualdade social gerada pela tecnologia, seguindo a linha crítica de Altered Carbon. Como a série tinha sido lançada poucos meses antes do início do processo seletivo dos contos, muita gente se influenciou nas problematizações trazidas ali, as quais são, afinal, extrapolações de coisas que já acontecem hoje no âmbito das elites que querem morar em Marte e viver para sempre”, relembra.

Lidia Zuin destaca, ainda, a comparação de estudos a respeito do futuro com a própria ficção científica. “Na área do Future Studies, temos a ficção científica como uma disciplina de visualizar e construir futuros por conta desse poder especulativo e crítico que o gênero tem. Chegamos em um ponto no qual fica difícil de dizer se é a ficção científica que influencia o desenvolvimento tecnológico ou se o desenvolvimento tecnológico tem influenciado a ficção científica, já que as velocidades se aceleraram muito mais e o acesso a essas informações e consciência tecnológica tem sido muito maior por conta do acesso à internet”, pondera.

Para ela, o resultado prático disso é o aumento do interesse do público pela própria tecnologia e pelo futuro. “Muitas pessoas que sequer se interessavam por ficção científica hoje vêem Black Mirror e nem pensam no gênero que é a série, mas sim os questionamentos que ela traz em torno de tecnologias que já são tão tangíveis no nosso dia a dia. Então, sim, é possível de se manter uma boa relação entre a literatura ou tantas outras formas de arte com o futuro”, garante.

No Comments

Add Comment